Você Não É Cinderela - Conto 5 - As Luzes da Cidade
- Isabella Beatriz Fernandes Rocha
- 4 de fev
- 9 min de leitura
Sinopse: Quando tudo de humano que restava na vida de Clémence se foi, algo a convencerá a se permitir viver um novo amor... com alguém que esperou muito tempo por uma chance.
Está chovendo em Paris quando Clémence acorda de manhã.
Ela abre os olhos, encarando a parede do seu apartamento. Este prédio é novo, mal tendo cinco anos completos. Ele tem calefação no chão, lavanderia dentro do apartamento e janelas à prova de som.
Seu outro apartamento, em Nice, tem quase duzentos anos de história e está sendo lentamente destruído por problemas de infiltração. Que temático.
Ela pensa nisso tudo antes de se arrastar para fora da cama. Clémence se envolve em um roupão quentinho, vai até a cozinha e coloca a água para esquentar na chaleira elétrica. Coloca pão na torradeira e tira o queijo brie e os tomatinhos da geladeira. Quando a torradeira apita e as torradas saltam para cima, ela ouve uma batida na porta.
Enfiando um tomatinho na boca, Clémence anda até a porta e a abre, mas não há ninguém do lado de fora. Dando de ombros, volta para a cozinha, onde ouve outra batida. É preciso uma terceira para ela perceber que não estão batendo à porta da frente: estão batendo na porta da varanda.
Quando Clémence a abre, uma nuvem de tempestade está parada do lado de fora.
— Seu leite está lacrado — disse a princesa do Outono, balançando uma garrafa de leite que estivera na cesta pendurada na varanda. — Isso é muito rude.
— O leite não é para você. Só deixo lá fora para mantê-lo gelado. — Clémence pega a garrafa com um sorriso calmo. — Quer entrar?
— Obviamente. Estou trabalhando a noite toda. — Ela apontou para a chuva atrás de si. As nuvens do céu estão da exata mesma cor do cabelo cinzento dela.
— Então, por favor, entre.
Há sempre uma mudança de pressão no ambiente quando a Princesa entra. Os ouvidos sensíveis de Clémence apitam por um segundo e ela prende a respiração antes de tudo voltar ao normal.
Ela volta à cozinha e pega um outro prato, distribuindo as duas torradas sobre elas. Clémence espalha o queijo e corta os tomates-cereja, adicionando-os sobre as torradas também. Quando se vira, a Princesa está sentada à mesa, com as mãos cruzadas. Ela está tirando as luvas de cetim prateadas, que combinam com a capa, que ela pendurou no gancho ao lado da porta ao lado do casaco azul da North Face de Clémence.
Clémence se vira para pegar dois copos do armário. Sem cerimônias, a princesa abre o leite gelado e serve para as duas.
— Você gostou? — pergunta a Princesa, inesperadamente. Clémence olha para ela sem entender. — A tempestade. Eu fiz para você.
— Ah. — Clémence olha pela janela. Os céus cinzentos se espalham até onde a vista vai e cortinas de água escorregam pelos telhados vizinhos e pelas ruas estreitas de paralelepípedos. O aquecimento interno do apartamento deixa as janelas embaçadas. Não há ninguém nas ruas, então ela pode imaginar que todos estão em suas casas, em similares silêncios pacatos. É… pacífico. — Sim. Obrigada.
— É para o seu aniversário — continua a Princesa. — Eu sei que você não gosta de neve, então consegui fazer um acordo com a corte de inverno. Eles são tão irritantes. Tipo… sabemos que vocês gostam de gelo. Dá para fazer uma coisa diferente?
Clémence encara a Princesa, e então a janela.
Ela sempre faz isso. Inesperadamente, um ato de bondade, de carinho. Tão caloroso que ela se preocupa que faça derreter seu coração. Ela gosta de você, cantarolava Bretagne, quando a via voltar para casa com as bochechas queimando de vermelhas. A Princesa recusava qualquer tipo de troca quando fazia algo assim. Eram presentes, insistia ela, não acordos.
Quando uma força da natureza te dá um presente, que tipo de resistência você consegue montar contra ela? Como evitar amá-la?
— Você gostou da minha casa? — pergunta Clémence.
A Princesa olha ao redor.
— É pequena. Esperava que fosse maior por dentro.
Clémence assente.
— Acho que é pequena sim. Eu não preciso de muito espaço.
— Isso não é exatamente uma declaração de amor ao lugar. Achei que você gostava do seu apartamento antigo na outra cidade.
Clémence dá de ombros.
— É… diferente agora.
— Sem ele lá?
Clémence pega a torrada e a morde, assentindo.
— A cidade não é mais a mesma que era quando moramos juntos lá. O país. O mundo. E ainda assim… eu o vejo em todo o lugar.
— O mundo ainda é o mesmo — diz a Princesa, pegando um dos tomates-cereja e colocando-o na boca. — Só diferente. Como você está diferente porque ele esteve aqui.
Clémence respira fundo e então solta o ar. Bretagne tinha sido a última pessoa a conhecê-la como ela era antes de aceitar sua herança. Sua família já tinha crescido seis gerações e já não se lembrava dela, além de histórias de ninar amalgamadas.
— Obrigada por vir passar meu aniversário comigo — diz Clémence, estendendo a mão para pegar a dela. A sensação é… incomum. Como tudo sobre ela. Como segurar algo gelado através de um tecido. Sua pele escura é macia, como a superfície da água.
— É o primeiro que não vamos passar os três juntos desde que você foi para o mundo das fadas. Achei que eu devia vir ver o que você faz tanto por aqui. — A Princesa olha ao redor, para as pilhas de livros e desenhos nas paredes. — Claramente, não muito.
Clémence ri baixo.
— Não é tão ruim. Deixa eu te mostrar a cidade.
A Princesa aperta os lábios, pensando e por fim assentiu.
— Tudo bem. Me mostre o que é tão importante.
*
— Então… vocês usam isso para se proteger da chuva? — pergunta a Princesa, enquanto Clémence a guia pela rua, mantendo o guarda-chuva acima das duas. — Eu posso destruir isso em dois segundos com uma lufada de vento.
— Por favor, não faça isso — pede Clémence, com um sorriso entretido.
— Mas é só usar magia para não se molhar. — A Princesa dá de ombros.
— Humanos não têm magia.
— Então é só ficar molhado — insiste ela.
— Humanos ficam doentes.
— Se ficam molhados? — A Princesa ergue uma das sobrancelhas.
— É. Molhados e gelados.
— Então por que eles continuam vivendo na França?!
Clémence aponta para cima.
— Porque temos guarda-chuvas. Assim não precisamos ficar molhados.
Os olhos da Princesa indicam que ela pegou o ato falho instantaneamente. Clémence leva um segundo a mais para perceber e desvia o olhar. Mesmo depois de todos esses anos, depois de tudo que aprendeu sobre sua magia, sobre sua origem, ainda faz isso: pensa em si mesma como humana.
— Então… — A Princesa limpa a garganta. — Quanto tempo até chegarmos na sua monstruosidade de ferro?
Apesar do tempo, ainda há turistas corajosos na fila para subir na torre Eiffel. As duas, porém, são as únicas nos Jardins do Trocadero. A Princesa olha para a torre de cara feia.
— Eu devia acertar mais raios nessa coisa.
— Por favor, não faça isso — pede Clémence, novamente balançando a cabeça.
— Por que construir de ferro?
Clémence revira os olhos.
— Acho que Bretagne deixou algum aviso para a família antes de ir para o mundo das fadas. Usavam ferro para tudo uma época.
A Princesa balança a cabeça. Parece querer dizer mais alguma coisa, mas se contém. Clémence solta um suspiro que se condensa em uma nuvem. A Princesa olha para ela, mais fascinada com isso do que com a genialidade da invenção humana à frente delas.
— Se te conforma, a maioria dos humanos também não gostou quando foi construída. Mas ela é bem mais bonita à noite – diz Clémence, soltando mais condensação pela boca — Ela fica toda iluminada.
— Com suas luzes elétricas? — pergunta a Princesa, distraidamente, a voz mais baixa agora, observando a respiração que saía dos lábios de Clémence.
— É. — Clémence não consegue pensar no que dizer em seguida, então não diz nada.
Elas ficam paradas ali, sob o guarda chuva, cercadas por todos os lados da tempestade que a Princesa fez apenas para o seu aniversário, pelo que pareceu muito tempo. Sob a atenção da princesa do outono, Clémence se lembra da primeira vez que a viu. Tudo tinha sido tão intenso naquela noite: o baile, o chamado da floresta, a dança das fadas… e de alguma forma, se lembra perfeitamente da sensação de ter a atenção da Princesa pela primeira vez. De como a fez se sentir… importante.
— Você… quer ver mais? — pergunta Clémence, e não sabe mais se está falando sobre a cidade.
A Princesa sorri sem mostrar os dentes.
— Claro.
*
Elas caminham por ruas pavimentadas com paralelepípedos e observam as pontes sobre o Sena, a catedral de Notre Dame, o moinho do Moulin Rouge e a atmosfera de Montmartre. Tomam café em um bistrô e são hostilizadas pelo garçom. E, durante todo o tempo, a chuva continua caindo.
Clémence começa a gostar do clima. Definitivamente é melhor que neve, que a lembra de perder seu pai. E, como a maioria das pessoas a detesta, é como se Paris fosse toda delas. E é ainda mais especial porque ela sabe que foi de propósito.
Como ela tem certeza que a princesa não estaria pronta para uma balada humana, elas dão os braços e seguem de volta para o apartamento dela. No caminho, a respiração de Clémence volta a se condensar e ela consegue seguir a atenção da Princesa sobre si.
— Por que você foi embora? — pergunta a Princesa, inesperadamente.
— Do mundo das fadas? — Clémence brinca com o zíper do seu casaco.
A Princesa assentiu.
— Eu sei que perder Bretagne foi difícil, mas… não tem mais nada para você aqui.
Os olhos de Clémence se enchem de lágrimas, então ela os fecha.
— Eu… eu sinto como se não tivesse mais nada para mim em lugar nenhum.
— Isso não é verdade. — Ela para de andar. A Princesa se move para ficar à frente dela. — Eira…
Clémence balança a cabeça.
— Não me chame disso — pede ela.
— Esse é seu nome.
— Não, é…
— Seu nome verdadeiro. — A Princesa estende o dedo e brinca com a nuvem que sai com a respiração de Clémence. Ela se solidifica por um segundo a mais antes de sumir. — Bretagne sabia e eu sei também.
Nomes verdadeiros eram coisas perigosas. No mundo das fadas, todos se conheciam por apelidos, prenomes ou epítetos. Conhecer o nome verdadeiro de alguém queria dizer que você tinha poder sobre a pessoa. E ela supunha que a Princesa tinha esse poder. Ela tinha muito antes de saber seu nome verdadeiro.
— Venha para casa — pede a Princesa. — Você foi uma boa parceira. Você cuidou de Bretagne até o fim da vida dele. Ele mostrou a você o mundo dele e você mostrou a ele o seu. Agora… deixe eu mostrar o meu. Deixe que ele seja seu também como você nunca se permitiu antes.
As lágrimas escapam quando ela pisca, balançando a cabeça.
— Eu não quero que mais tempo passe. Eu não quero ver esse mundo seguindo em frente e esquecendo que ele… que todos eles existiram. Eu não sei como… — Ela pressiona a mão sobre um dos olhos, tentando enxugá-lo. — Eu disse a ele que isso aconteceria, eu disse… mas ele não ouviu.
A Princesa pousa as mãos sobre os ombros dela.
— O tempo vai passar, quer você queira ou não. Não há motivo para se torturar. Luto sempre existirá. Mas uma manhã nova também sempre vai chegar, e com ela a possibilidade de algo novo e belo.
Clémence respira fundo uma vez, e então duas, tentando se acalmar. As lágrimas tinham esfriado, deixando seu rosto frígido.
— Promete?
A Princesa assente e toca seu rosto para limpar uma lágrima.
— Venha para casa.
Dessa vez, seu toque é morno, como a chuva que cai após um longo dia de sol intenso. Uma tempestade violenta, inesperada e capaz de encharcar alguém completamente.
— Princesa — diz Eira, piscando para livrar os cílios do resto das lágrimas.
— Petri — diz a Princesa, um dedo preguiçosamente passeando pela bochecha dela. A Mudadora sente um arrepio que se estende por toda a sua espinha. — Pode me chamar de Petri.
— O que? — pergunta Eira, confusa.
A Princesa hesita um segundo a mais antes de sorrir, dentes pontudos e tudo.
— Petricor. É meu nome. Terrivelmente óbvio, eu sei, mas…
Eira a interrompe com um beijo.
A princípio, é como beijar um espelho condensado após o banho. Frio, molhado, rígido. Depois, como se respondesse à ela, o corpo de Petri se aquece. As mãos dela se envolvem em sua cintura. Eira estende os braços e os envolve nos ombros da Princesa. O guarda-chuva acaba preso entre os abraços das duas, até que, por fim, cai no chão ao lado delas, sem que nenhuma das duas repare.
A chuva rapidamente as encharca, fazendo pesar o casaco de Eira e, pela primeira vez na vida, Eira vê o cabelo de Petri molhado. Ela está deixando isso acontecer, deixando-se ser afetada pelo mundo humano. Se ela pode fazer isso… Eira pode tentar amar o mundo das fadas novamente.
O beijo delas se estende noite adentro, sem que nenhuma tenha vontade de sair do lugar ou evoluí-lo. Mais de cem anos de beijos respeitosos e tensão sexual têm esse efeito. Ainda assim, nenhum dos humanos presta a menor atenção quando passam por elas.
Afinal, ali, as duas são só mais um casal apaixonado em Paris.



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